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Crítica | It, A Coisa

Após meses de questionamento sobre a qualidade do novo filme e uma divisão contrastante entre as expectativas, “It, A Coisa”, chega aos cinemas para dar o devido valor a toda espera.

A cada 27 anos, no condado de Derry, o que nos é apresentado como “A Coisa”, ressurge, e com a manifestação dessa entidade maligna, começam a aparecer vários casos de crianças assassinadas e desaparecidas, entre elas, Georgie, irmão de Bill. Junto com seu grupo de amigos, Bill faz de tudo para investigar os desaparecimentos e descobre que o que há por trás do caso há uma força muito maior do que ele imaginava.

O filme será dividido em duas partes; A primeira será lançada nesta quinta-feira e conta o surgimento da Coisa frente à infância do grupo que a investiga. O “capítulo dois” abordará a vida desses mesmos garotos 27 anos depois o ocorrido, mostrando o retorno da entidade.

O enredo do longa é baseado na obra literária de Stephen King, o que contribuiu para que o plot fosse magnífico em autenticidade para o gênero. Apesar do filme já ter outra versão gravada nos anos 90, o novo é superior em todos os seus aspectos.

A começar pelas atuações, o grande destaque é de Bill Skarsgård, que interpreta o palhaço Pennywise. Skarsgård é dono de um excelente jogo de expressões faciais e corporais, além de brincar com o tom de seu personagem, o que torna o antagonista muito mais sombrio e assustador ao mesmo tempo em que soa infantil o suficiente para fazer justiça as suas vestes.

Entre o grupo de “heróis”, temos uma ressalva para Sophia Lillis, intérprete de Beverlly Marsh, uma garota que sofre diariamente em casa com a presença de seu pai abusivo e que apresenta uma força caótica ao lidar com o choque de ser reconhecida por toda a cidade como uma mulher madura antes mesmo de se envolver de fato com homens. A atriz sabe mesclar o conjunto entre a inocência melancólica e o amadurecimento radiante de sua personagem, expressando muito bem todos os conflitos internos e reações a situações que impulsionam as ações da garota.

O grupo principal tem excelente desenvolvimento em seu roteiro, o que é fortalecido pelas atuações que, em conjunto, formam uma afirmação muito maior de vínculo e proteção uns dos outros. A relação entre Bill e seu irmão George, apesar das poucas cenas, é estabelecida de maneira tão adorável que faz com que seu telespectador se sinta comovido com essa perca tão grande na vida do rapaz, o que leva a alguns momentos comoventes que não atrapalham o terror – e sim, o acrescentam.

A direção é um ponto surpreendente. A maneira como o diretor brinca com sua câmera é tão dinâmica quanto a maneira que o palhaço interage com os seus personagens. A utilização, especialmente, da luz em mistura com a trilha sonora sufocante é o que torna a atmosfera cinzenta do filme tão assustadora e envolvente. Sem contar a pouca quantidade de jump scares, o que acresceu muito mais em termos de ambientação, o que evitou o corte da tensão em pontos que elevaram o medo de seu público.

As cores principais são divididas entre azul e um amarelo-amarronzado. Na maior parte do longa, esses contrastes são utilizados juntamente à um jogo de sombras e luz acinzentados para promover uma mudança no visual do ambiente e direcionar focos específicos que precisam ser notados.

A principal força do filme é a maneira como utiliza medos essencialmente humanos e situações trágicas do cotidiano para aproximar o telespectador da realidade de seu filme. O palhaço Pennywise é só uma mera via de representação para todos os outros pesadelos que afligem seus protagonistas: de um lado temos violência doméstica – como citado anteriormente, quando abordada a personagem Beverlly; em outro temos a ansiedade incansável de Bill ao lembrar de seu irmão desaparecido. Ainda temos Mike, que se culpa pelos seus pais terem morrido carbonizados, Eddie, um garoto que tem uma mania doentia por limpeza graças à fissura de sua mãe pela sua saúde, além dos outros integrantes do grupo.

Com isso, podemos ter a certeza de que It, A Coisa é muito mais do que uma simples obra feita para dar alguns sustos; É um filme que preza pelo nervosismo realístico de seu público e pela capacidade de um jogo mental muito bem planejado.

O longa estréia nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (07/09).

Lara Arruda
Maníaca por arte e cinéfila assídua.