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Plataforma Indica – 3 seriados pra ver e se apaixonar

Nada como se apaixonar por um seriado e ver durante horas e horas e horas

The Young Pope é fruto da parceria entre os canais HBO, Sky Atlantic e Canal+ com o aclamado diretor italiano Paolo Sorretino. Sorretino nos presenteia com um das melhores estreias do ano passado, cheio de nuances, significados velados e, como já é de se esperar, com uma fotografia e direção de arte primorosas. Além disso temos uma das melhores atuações de Jude Law, como o personagem principal, Lenny Bellardo, o fictício primeiro Papa americano.

Talvez o aspecto mais gritante da obra de Sorretino seja a implacável busca pelo belo. É impossível não contemplar, não ser paralisado pelos seus planos minuciosamente construídos. Essa profunda contemplação na qual somos lançados, as vezes nos faz esquecer que Sorretino tem uma mensagem codificada em cada cena, fala, roupa. Não é diferente em The Young Pope.

Lenny é uma figura antagônica ao nosso tempo, de um espetáculo que permeia a todo o tempo o escândalo. Lenny rechaça tudo isso, é um tipo de rebelde que repele a rebeldia. Seu isolamento é fruto do sentimento de distância do Deus que segue. Tal sentimento é o motor do personagem, verdadeiramente sua essência. E toda ou qualquer análise da psicologia por trás de Lenny deve partir desse ponto.

Aliás, vale ressaltar um detalhe, li várias análises sobre Lenny e apesar do que descrevi no último parágrafo ser tão claro como água, uma infinidade de críticos simplesmente não a notaram ou não a entenderam, alguns são taxativos: “Novo seriado de Sorretino tem Papa jovem e ateu”. Não, apenas não. Não foram capazes de entender o que está por trás da dúvida de Lenny.

Dito isso, qual a dúvida de Lenny? Vamos lá. Lenny parece estar vivendo o que os teólogos católicos chamam de “Noite do Espírito”. Que consiste num momento em que há um profundo sentimento de abandono na alma em relação a fé, fatalmente qualquer certeza se vai.

Todavia, Lenny não é um religioso numa dúvida mortal, que o paralisa e o impede de fazer as suas profissões de fé, como pode ser enganosamente interpretado por um espectador desatento. Ao contrário, o abandono que sente de Deus é o mais forte fundamento de sua fé.

Essa última afirmação parece ser profundamente contraditória. Todavia quando analisamos a essência do desejo de Sorretino ao retratar Lenny, observamos algo diferente do que está à primeira vista. Explico: em primeira vista está um religioso com sua dúvida. Mas, num ângulo mais profundo, vemos que na realidade Sorretino deseja retratar um santo católico. Para isso escolheu um momento muito específico, um momento onde há centenas de nuances na fé, no comportamento, no desejo e na caminhada espiritual. Tal momento, extensamente citado na biografia de vários santos, é a já referida “Noite do Espírito”. Momento, aliás, profundamente bem retradado por Sorretino.

Bellardo é, sem dúvida, um personagem incrível, poderia escrever páginas e mais páginas sobre ele, sobre cada aspecto de sua personalidade, cada paradoxo, talvez fique para um próxima.

Mas The Young Pope não é um folheto religioso, como também não é está crítica. The Young Pope é sobre o amor — ou o esquecimento dele — no nosso tempo. É fato que as pequenas coisas foram esquecidas num mundo cada vez mais veloz e efêmero como o nosso. As posições de Lenny são um meio para nos mostrar isso. Lenny ama profundamente a sua fé, e está disposto não só a sofrer por ela, como a levar as últimas consequências, e é por isso que ele nos causa tanto espanto. Pois no nosso é um fato que são poucos os que está disposição, e, aliás, não estou me referindo aqui a religião e sim ao amor.

É difícil entender a primeira vista. Pois primeiro precisamos entender o amor. E assim vamos entender qual o aspecto que Sorretino escancara em The Young Pope. Mas o que é o amor? O amor é o amor, ele se explica em si mesmo. Todavia estamos num tempo em que esquecemos que o amor também significa sofrimento. Tenho certeza que talvez alguns ao ler está última frase, se coloquem ardorosamente contrários a esta opinião. Mas me diga, quem você tem absoluta certeza que te ama? Faça uma lista. A lista está pronta? Agora me diga, quantas pessoas dessa lista já sofreram por você? Todas. Essa é a essência da mensagem de The Young Pope.

Eu diria que The Young Pope, caso entendida corretamente, pode ser uma experiência de profundo exame pessoal, da consciência, das atitudes… Enfim. Uma experiência para a própria alma.

Para aqueles que gostarem de The Young Pope, recomendo que vejam “A Grande Beleza” e “A Juventude”, ambos filmes de Sorretino, que estão profundamente conectados a The Young Pope.

Fargo é a continuação espiritual do fantástico filme homônimo de 96, dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen. Ambos estão presentes na produção do seriado que, sem dúvida nenhuma, não perde em nada para o fantástico filme.

Fargo – a série – fala sobre pessoas que foram esquecidas pelo tempo, pelo espaço, por elas mesmas. Invade-nos com uma constante sensação de melancólica, de que as coisas estão paradas no tempo, e de como essa monotonia pode quebrar completamente as pessoas, a fotografia, aliás, é o principal motor dessa sensação de abandono e é um dos pontos altos de Fargo.

Os problemas das personagens não são muito diferentes, nunca serão capazes de afetar mais que alguns punhados de pessoas. Mas diferente do que o leitor possa pensar, os problemas são grandes, enormes na verdade. São pequenos devido a já pequena dimensão daquilo que se passa em Fargo.

Muitos filmes e seriados já trataram de assuntos como esse, mas Fargo faz diferente, alia a seriedade ao cômico para escancarar tudo isso. E o faz de maneira magistral. Como, por exemplo, o homem padrão que se liberta de maneira completamente acidental, e, na verdade, contra a sua vontade, da sua vida cotidiana e se converte num absoluto sociopata. De fato, o nosso tempo está cheio de pessoas assim, pessoas que vivem no automático, numa profunda miséria do espírito, em suas verdadeiras amarras invisíveis, apenas aguardando para explodir.

O humor de Fargo tende sempre ao exagero, ao absurdo, justamente para mostrar com clareza o poço que a modernidade pode representar. Não fosse assim, talvez não nos ficasse claro.

Os personagens de Fargo são profundamente bem feitos, novamente, e infelizmente, não há tempo para se aprofundar em cada um deles.

Uma última observação, não é necessário ver o filme para assistir a série, mas, pessoalmente, recomendaria que assim o leitor interessado faça.

The Leftovers incorpora em seu roteiro uma gama de questões que se relacionam com a perda, aqui já está aliás a chave para entender aquilo que se passa. A perda está em todos os lugares, em esferas que vão desde do profundamente pessoal até o social. Tudo isso assinado pelo já consagrado Damon Lindelof, criador de Lost.

O plot da série é simples, porém extremamente complexo. De uma momento a outro, sem avisos, 2% da população simplesmente desapareceram. Todavia, a primeira vista, o que parece ser o cumprimento da crença cristã do arrebatamento, é contradito pelo fato de que entre aqueles que sumiram estão pessoas de índole e passado extremamente duvidosos.

The Leftovers trata justamente das reações a isso, que vão desde da profunda tristeza de alguns, sempre entre os que ficaram, até a revolta e sentimento de abandono, mesmo entre aqueles que não perderam ninguém. Como, aliás, é o caso do sherriff Kevin Garvey, vivido por Justin Theroux. Sua família está destroçada pelo caos em que o mundo foi lançado, sua ex-esposa está envolvida numa espécie de “culto da lembrança”, que tenta impedir que as pessoas comuns voltem as suas vidas normais e coloquem de lado o passado. Seu filho mais velho está envolvido com um profeta que parece, de algum modo, estar relacionado com o enigma que cerca o desaparecimento repentino das pessoas. As reações são parte fundamental de tudo, na realidade as reações são o motor da série.

As reações, os sentimentos, as sensações são retratados de modo tão peculiar e sincero que, na realidade, duvido que haja algo se quer parecido com The Leftovers nos últimos 10 ou 20 anos. Parece uma afirmação muito poderosa, mas é verdade. O leitor aqui tome nota que não estou desmerecendo todas as séries de todo esse tempo, porém, de certa forma, todas, ou quase todas, as séries estão presas no mundo real. O mundo real de The Leftovers é diferente, é agressivo, é destrutivo, as emoções foram destruídas, o chão já não existe como antes. A ordem, que tanto valorizamos, foi perdida junto com os 2%