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Crítica | Os Meninos Que Enganavam Nazistas

A delicadeza do cinema francês continua perdurando mesmo em sua faceta mais violenta: O retrato da guerra. Mais uma vez, recebemos um toque de inocência em um filme sobre a Grande Guerra, porém, de uma maneira um pouco diferente e, quem sabe, se assim podemos dizer, um tanto quanto mais espontânea e intimista.

Superior ao “Menino do Pijama Listrado” e tão bom quanto “A Vida é Bela”, Os Meninos que Enganavam Nazistas chegará aos cinemas nesta quinta-feira, com a promessa de trazer momentos de reflexão e muitas lágrimas para o seu público.

A trama gira em torno de Maurice (Batyste Fleurial) e Joseph (Dorian Le Clech), irmãos judeus que, durante a Segunda Guerra Mundial, são mandados pelos pais a uma rota de fuga para escapar dos nazistas, que estão ocupando a França. Durante todo o trajeto, as crianças encontram inúmeras dificuldades e se vêem prestes a serem capturadas pelo exército alemão, mas mostram agilidade e inteligência em articular planos para enganarem os soldados.

A direção e o roteiro são de Christian Duguay, que mescla muito bem a oscilação entre inocência e violência, poder e submissão. A paleta de cores escolhida insinua um ar vintage ao filme e compõe perfeitamente um ambiente transferido de alegria e infância para tristeza e separação. Os tons acobreados são trocados por uma atmosfera cinzenta e catastrófica. As cenas em que Jo e Maurice enfrentam os nazistas cara a cara chegam a ser agonizantes – contando com um excelente trabalho de maquiagem no momento em que Joseph é agredido por um soldado. A fuga é frenética, mas deixa espaço para seu telespectador respirar durante os momentos de conforto entre os dois irmãos. O roteiro cumpre seu trabalho de maneira fantástica; O drama é necessário na maior parte do tempo, mas não transborda além do devido, sendo coberto por um toque de realidade.

Em termos de interpretação, o destaque vai para Dorian Le Clech – intérprete de Joseph – que exerceu excepcionalmente o papel em seu primeiro filme. Ao longo da trama, vemos a brutalidade do amadurecimento do personagem. Joseph é forçado a encarar situações que podem colocar a sua própria vida e a de sua família em risco, o que faz com que ele tenha que deixar sua infância de lado para conseguir lidar com a maldade das pessoas. Porém, graças ao excelente trabalho de Dorian, seu personagem nunca deixa de transparecer a inocência de uma criança. Batyste Fleurial também exerce seu papel como irmão mais velho, sendo de responsável por trazer segurança para Jo em seus momentos de angústia, deixando em seu telespectador a certeza que fará de tudo para salvar a vida de seu irmão.

O casal de pais possui uma atuação suave, mas que puxa uma melancolia sagaz nos momentos em que é preciso enfatizar o medo de perder seus filhos, sendo os próprios pais os responsáveis por apresentar às crianças a verdadeira hostilidade do mundo. As cenas em família têm uma conjuntura dócil e harmônica, todos os integrantes possuem química familiar e se dão muito bem em cena. O amor entre pais e filhos se torna muito palpável e realístico.

A trilha sonora composta por Armand Amar é brilhante e apaixonante, tornando impossível não cair de amores pela beleza fascinante desse drama francês. A música clássica é de uma delicadeza imensurável. Há ainda um trecho em que ouvimos a matriarca da família tocar violino – em uma das cenas mais belas em termos gerais; Sonoridade encantadora e fotografia espetacular.

Baseado na real história dos irmãos Joffo, relatada pelo próprio Joseph em sua epopeia biográfica, o filme Os Meninos que Enganavam Nazistas é uma obra de arte esplêndida, delicada e inesquecível.

Estréia nessa quinta-feira (03/08) nos cinemas de todo o Brasil.

Lara Arruda
Maníaca por arte e cinéfila assídua.