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Crítica | Atypical

É desnecessário dizer que Atypical é uma série incomum.

Primeiro, porque o tema abordado (o autismo) foi desenvolvido de maneira real e nem um pouco forçada. Segundo, porque  houve verossimilhança e estudo na criação dos personagens.

Diferente do que já vimos em outros filmes ou séries, Atypical utiliza o autismo apenas como pontapé inicial. A série, na verdade, é sobre as consequências familiares em cadeia. É claro que a história acontece em torno de Sam, o autista, mas a série não se limita a ele. Ao contrário, vemos um pai assustado, uma mãe neurótica e uma irmã excluída. Dá para perceber o quanto a família de Sam se desestruturou com o seu diagnóstico. No entanto, a série não trata isso como algo necessariamente negativo, mas apenas a realidade.

Atypical tem como protagonista o ator Keir Gilchrist, que anteriormente já participou de um filme sobre doença mental chamado Se Enlouquecer Não Se Apaixone. No filme, ele era um adolescente em depressão e ideação suicida, mas sempre em contato com outros pacientes “mentais” durante seu internamento na clínica psiquiátrica. Keir Gilchrist já havia se dado muito bem ao interpretar Craig (Se Enlouquecer Não Se Apaixone), mas ao incorporar Sam, Gilchrist se superou definitivamente! No último episódio da temporada, ele dá o xeque mate durante a cena em que precisou simular uma crise de pânico. E ao contrário do que é comumente abordado em histórias sobre autistas, a crise não veio no começo ou no meio. E muito menos aconteceu mais de uma vez. No dia a dia, Sam apresentou os traços e características de alguém dentro do espectro, entretanto, ele já sabia lidar mais ou menos com isso. Possuía estratégias. Atypical mostrou que nem todo autista é, necessariamente, aquele que tem a mente ausente, que grita e chora. Sam foi colocado como um garoto com pensamentos extremos e obsessivos, mas que tinham certo padrão. Dessa maneira, o momento da tão falada crise foi usado como clímax; como o seu limite, a gota d’água. Quando algo aconteceu brutalmente e que Sam já não sabia mais como se controlar.

É interessante ver a maneira que Sam enxerga o mundo: ele o vê como uma simples selva, onde todos nós somos animais, mesmo dotados de inteligência e polegares opositores. E durante toda a série, Sam recheia os episódios com metáforas ambientais, relacionando a sua vida como a de um animal. Infelizmente, o fator da subjetividade humana entra em ação, e Sam  descobre pela dor que nem tudo pode ser analisado de um jeito analítico.

Outro ponto importante foi mostrar personagens com outros tipos de distúrbios sutis, que, sem uma boa observação, nem dá pra perceber. Mas se assistirmos com cuidado, notamos que Paige (a namorada de Sam) tem uma espécie de distúrbio histriônico, ou talvez algo dentro do espectro da ansiedade. Ela é mostrada como “normal”, no entanto, Paige é tão obsessiva quanto Sam, e podemos descobrir isso quando ela mexe em tudo, quando ela fica verborrágica, e, principalmente, quando ela dá um ataque (quase surto) depois de Sam ter terminado com ela.

O design de som também teve um papel importante, já que o som era algo constantemente reclamado por Sam, que precisava de um headphone com bloqueio de ruídos externos. Era como se não somente Sam ouvisse os pequenos ruídos, mas nós também, os espectadores, tivemos acesso à diferença dos ruídos quando Sam usava ou tirava o headphone.

A fotografia não foi lá grande coisa, mas não é como se fosse algo tão importante a ponto de estragar a história. Na realidade, Atypical é uma série que prende o espectador pelo roteiro bem amarrado, pela direção das cenas que desenham uma trama profunda, mas contam pra nós de uma forma leve e fácil de digerir. Não foi preciso sensacionalismo ou exagero. Atypical mostrou apenas a verdade, sem mais e sem menos.

Clari Maga
Publicitária, escritora e cinéfila de carteirinha