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Crítica | Annabelle 2: A Criação do Mal

Após o preguiçoso desserviço à Invocação do Mal que foi feito no primeiro filme do spin-off Annabelle, recebemos, finalmente, uma obra com conjuntura suficiente para fazer jus à sua franquia de deriva, ainda que inferior.

A trama gira em torno da origem e criação da boneca amaldiçoada. Após 12 anos da morte da filha, um artesão de bonecas e sua esposa decidem abrigar meia dúzia de órfãs em sua casa, não sabendo que a presença das garotas viria a despertar o espírito maligno que repousava na boneca.

Temos aqui um enredo palpável, mas nada inovador. Casas mal-assombradas acabaram por se tornar mais um clichê convencional do gênero. Inicialmente, temos um diferencial em Annabelle, visto que o quarto da menina é o principal ponto de atividade sobrenatural, já que a boneca da falecida garota encontra-se trancada dentro do armário. Porém, com cerca de meia hora de filme, começamos a observar a casa inteira tornar-se um fardo para os moradores e visitantes e com isso, voltamos ao padrão de casa mal-assombrada que já nos é tão familiar na saga Invocação do Mal.

O destaque em quesito de performance vai para Talitha Bateman, que interpreta Janice, uma órfã que possui problemas para andar devido a uma doença que prejudicou o movimento de suas pernas. A infantilidade melancólica é o ponto principal para que o telespectador crie vínculo e se sinta comovido pela situação da personagem, que ao longo do filme vai perdendo as esperanças de ser adotada por causa de seu estado. Além disso, temos o braço direito de Janice, Linda (Lulu Wilson), que fortalece um desenvolvimento muito tangível entre a amizade das duas e o quanto Janice significa para sua personagem.

Miranda Otto e Anthony LaPaglia fazem um trabalho agradável como os pais de Annabelle, mas nada de extraordinário. Sra. Mullins (Miranda Otto) é, entre os dois, a mais misteriosa e interessante, enquanto o Sr. Mullins (Anthony LaPaglia) está presente para pontuar seu papel de tentar equilibrar a mulher, que é o único amor que lhe restou, e a maldade que habita seu lar. Stephanie Sigman traz a suavidade crível de sua personagem, Irmã Charlotte, uma freira que, apesar de educar as crianças, em momento algum é rígida além do devido.

A direção é de David F. Sendberg, que é, de longe, o trabalho mais bem feito do filme. A escolha de uma paleta vintage esverdeada para a luz do dia dá vida ao começo inocente e despretensioso do filme. Durante a noite, os tons tornam-se opacos e escuros, com um trabalho excelente de difusão de elementos de fundo para causar a sensação de vigília ao seu público; a todo o momento nossa percepção é manuseada de acordo com o foco da câmera, possibilitando que vejamos esses elementos sendo movidos atrás da cena.

As angulações são audaciosas se juntam ao movimento de câmera em uma bela composição de cinematografia; Planos gravados de cima seguidos por rotação de filmagem, planificações em cenas onde a ambientação se torna mais existente, além da leve forma que a câmera transita pelo cenário, em especial nas cenas de apresentação da casa.

A principal fonte de construção de atmosfera está na inteligente maneira em como seu diretor utiliza as sombras e o silêncio em seu filme. Vemos aqui uma certa imponderabilidade no surgimento desses focos de luz, o que facilita um ar aterrorizante de acordo com os pequenos feixes escolhidos para iluminar os elementos corretos, sendo as próprias sombras o elemento mais presente durante toda a obra. A mixagem de som é importante para criar o clímax nas cenas de tensão e suspense, apesar de falhar em suas tentativas clichês de jump scares, que são desnecessários na maior parte do filme.

Além disso, uma narrativa preguiçosa e atores secundários um tanto quanto fracos, tornam as cenas em que as duas órfãs e os pais de Annabelle não estão presentes um tanto quanto maçantes de serem assistidas. Sem contar a familiaridade desgastante de personagens estúpidos o suficiente para investigarem barulhos e atividades paranormais durante todo o filme, mesmo após acontecimentos catastróficos.

Sendo assim, temos, em Annabelle 2, um filme bem dirigido e muito bem ambientado, onde as principais falhas são a insegurança em tentativas inovadoras, o que destrinchou uma série de clichês previsíveis e nenhum elemento que registre de fato a marca desse filme, a não ser pela fisionomia da boneca.

O filme tem sua estréia marcada para amanhã (17/08).

Lara Arruda
Maníaca por arte e cinéfila assídua.