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Crítica | A Viagem de Fanny

O tema holocausto nunca se esgota em questão de histórias, relatos, filmes e livros. A cada ano temos novas obras que abordam a Segunda Guerra Mundial, muitas delas baseadas em relatos de sobreviventes – ou da família de vítimas dessa crueldade. Temos aqui, mais uma história real, dessa vez baseada na judia Fanny Ben-Ami, que liderou um grupo de crianças numa frenética luta pela sobrevivência.

O filme fala sobre a rota traçada da França até a Suíça para ajudar as crianças a escaparem dos nazistas. Com a falta de um adulto para se responsabilizar e com o jovem líder de seu grupo sendo preso pelos soldados alemães, Fanny (Léonie Souchaud) é indicada para tomar as rédeas da situação e se encarregar do trajeto do grupo rumo à salvação.

Com a linha certa entre medo e força, Léonie Souchaud dá vida para sua personagem, mantendo a firmeza de uma verdadeira líder e não deixando transparecer a sua dor para diminuir o sofrimento de seus companheiros. Ainda assim, há momentos em que é impossível evitar a aflição, o que torna a personagem tão real e crível, mesmo diante de situações extremamente delicadas.

Temos um excelente trabalho de desenvolvimento pessoal e grupal na maioria de seus personagens. Victor (Ryan Brodie) é um garoto cegado pelo absurdo acometido aos judeus, o que faz com que o mesmo rejeite sua linhagem e tente de todas as formas dizer a si mesmo que é católico, ainda que não acredite nisto. A mudança dele ao longo do filme é muito sincera e gradativa, o que faz com que seu público crie certa afeição pelo garoto.

Além disso, Diane (Anaïs Meiringer) convence delicadamente a platéia de seu instinto de proteção em relação a Rachel (Lou Lambrecht). Diane encontrou Rachel dentro de uma caixa, escondida, após seus pais terem sido capturados por soldados. Em um bilheite, os pais de Rachel pedem para que a garota cuide de sua filha e, como prometido, Diane traz para si um papel quase maternal durante todo o enredo. O vínculo entre as duas personagens é, entre todos, o mais bonito e comovente.

Na parte técnica, temos em Lolla Doilon uma diretora e roteirista competente em demonstrar o seu filme da maneira mais delicada possível. O filme é contado de um ponto de vista quase infantil, reforçando sempre os adultos como pessoas não-confiáveis o suficiente ou com um limite de ajuda para fornecer. Apesar disso, o começo do filme parece um tanto quanto corrido; Cortes rápidos e várias cenas com cerca de apenas um minuto antes que se troque o cenário novamente deixam o público eufórico com a sensação de rapidez de sua desenvoltura. Isso é corrigido quando o filme entra em seu segundo ato e começa a trabalhar melhor as situações e os seus personagens.

Os tons azulados predominam durante todo o filme, mesmo ao dia. Isso cria uma espécie de calma longínqua ao telespectador, sendo, por vezes, composto por alguns tons de verde que representam infância e inocência, despertando a suavidade infantil dentro do peso da guerra. As roupas mesclam esse fundo; Fanny é a única no grupo com a roupa completamente vermelha, enquanto seus companheiros vestem azul e alguns poucos utilizam pequenos detalhes de vermelho, mas, essencialmente, o azul em suas vestes chama mais atenção. Essa maleabilidade de cores torna possível o destaque para a protagonista, que ao vestir vermelho representa a sociabilidade e, com isso, reforça seu papel de liderança mais uma vez.

Quanto ao uso da câmera, a diretora encaixa bem o trabalho de locomoção, apesar de nada inovador ou surpreendente. Planos filmados de cima e tela planificada são duas das técnicas que mais se fazem presentes durante o longa.

A viagem de Fanny não chega a ser uma obra-prima do cinema, mas é, definitivamente, um filme delicado, inocente e com força suficiente para estabelecer a linha entre crueldade e sensibilidade.

O filme já está em cartaz em alguns cinemas do Brasil.

Lara Arruda
Maníaca por arte e cinéfila assídua.