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Review | Girl Meets World

Girl Meets World é uma série que aborda a adolescência do início ao fim, da maneira como ela acontece: devagar, sutil e explosiva. Pode parecer estranho e paradoxal, mas é assim que ela é.

A terceira e última temporada de Girl Meets World foi adicionada pela Netflix na semana passada. E pela primeira vez em muito tempo, podemos ver um fechamento tão bem feito. Não tinha como ser melhor.

É bem verdade que a conclusão de um texto é sempre a parte mais difícil. Seja uma redação, romance ou roteiro. No caso das séries, piorou: existe a conclusão do episódio, da temporada e da trama por completo. Há inúmeros exemplos de séries que apresentaram dificuldade nisso, como How I Met Your Mother, Switched at Birth, Sherlock, mas foi justamente uma série Disney (que muitos imaginam ter tramas mais simples só por ser para o público infantil) que conseguiu ganhar os cinco trenzinhos pelo roteiro bem estruturado.

Resultado de imagem para girl meets world subwayNa primeira temporada, conhecemos o trio principal: Riley, Maya e Farkle. Dá pra notar que Riley é a protagonista, embora a diferença entre o grau de importância entre ela e Maya seja extremamente sutil. Ainda assim, a série sempre focou em Riley. Em sua família, em seus problemas sempre metaforizados na aula do professor Cory Matthews, que é também o pai dela. Desde o começo, já existe um triângulo: Farkle (que, pelo que descobrimos mais tarde, conheceu Riley primeiro) é apaixonado pelas duas amigas. Ele ainda tem treze anos e não sabe compreender os próprios sentimentos ainda.

Por isso, não se sabe se Farkle é apaixonado pela amizade delas, ou por elas mesmo. Além disso, Farkle é um garoto racional, com aptidões para a Ciência, bastante excêntrico, e talvez nem mesmo ele saiba o que sente a princípio.

Já no primeiro episódio desta mesma temporada, entendemos que Riley e Maya eram velhas amigas em sua primeira aventura. Elas estão no metrô e Maya literalmente empurra Riley no colo de Lucas, um garoto aleatório que mais tarde se revela como seu novo colega de classe. E então, a turma fica aparentemente completa. Lucas se torna o primeiro interesse amoroso de Riley, e seus amigos tentam juntá-los a todo custo. Depois de um tempo, o casal começa a sair, mas percebem que ainda não estão prontos o bastante.

Ainda na primeira temporada, Maya apresenta dificuldade em descobrir quem ela é, principalmente quando o desejo em ter uma família estruturada como a de Riley se torna maior. Ela tem pena e vergonha da mãe, mas seus amigos a ajudam a superar isso. Em determinado episódio, temos o surgimento de Shawn, um velho amigo de Cory, que mais tarde suprirá a paternidade que tanto faz falta para Maya. Em outro episódio, conhecemos Josh, o irmão caçula de Cory, que está prestes a entrar na faculdade, e que apresenta certa química com Maya.

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No entanto, esse romance não acontece simplesmente pela diferença de idade, mas pelo fato dele já ter dezoito anos, e Maya apenas quatorze. Pouco depois, aparece uma nova integrante: Smackle. Ela é uma desafiante do declato acadêmico de outra escola. Os constantes debates intelectuais são suficientes para que ela e Farkle virem amigos.

Na segunda temporada, Farkle começa a se sentir mal com as constantes investidas dos valentões e começa também a se perguntar se quer continuar sendo visto daquela maneira pelas pessoas. Farkle decide mudar o visual, e moderar um pouco sua excentricidade, embora continue sendo o mesmo garoto.

Ele só entendeu que numa sociedade há o que chamamos de contrato social: um acordo mudo entre as pessoas para que todos se comportem de certa maneira, um denominador comum. Entendendo isso, Farkle tenta se adaptar. E neste contexto, o namoro com Smackle tornou-se inevitável.

No meio da segunda temporada, surge Zay, o melhor amigo de Lucas do tempo em que ele morava no Texas. Zay havia acabado de se transferir para Nova Iorque e aos poucos se insere na turma.

No final da segunda temporada, Maya começa a entrar numa relação simbiótica com Riley. Sem perceber, Maya começa a agir como Riley, a se aproximar mais e mais da família de Riley, e até mesmo a se interessar por Lucas. A partir daí, acontece um novo triângulo. Não mais Maya-Farkle-Riley, mas agora Riley-Lucas-Maya. E de fato, Lucas demorou muitos episódios para decidir com quem ficaria.

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Quando chegamos na terceira temporada, entendemos que nunca existiu triângulo. Primeiro, porque Riley e Maya nunca gostaram de Farkle amorosamente. Segundo, porque Maya nunca gostou de Lucas; ela apenas havia se transformado em sua melhor amiga numa tentativa inconsciente de ter a vida que sempre desejou (ou invejou).  É interessante ver o amadurecimento de Maya, e o de Farkle também.

Foram dois personagens que mudaram vagarosamente e de maneira quase imperceptível, e isso deu realismo à série. Não foi da noite para o dia. Mas uma mudança gradativa e ilustrada através das lições que Cory metaforizou em suas aulas. E por falar nisso, é indispensável falar sobre o verdadeiro papel do professor abordado na série. Não somente um sujeito que discursa números e datas, mas um verdadeiro pai, que ensina  sobre a vida e como vivê-la.

Outro ponto importante é a adaptação ao Ensino Médio. A turma havia se acostumado a fazer o que quisesse, eles eram os “reis” da escola. Os veteranos do Fundamental. Então, precisam se readaptar à subordinação outra vez, a recomeçar de baixo. Isso mostra o que acontece no mundo real. Estamos sempre voltando ao primeiro estágio e começando de novo. Foi difícil, no começo, especialmente para Riley, que criou um perfil falso nas redes sociais para ver se dessa maneira se sentia aceita. Mas então ela viu popularidade virtual e falsa não adiantava nada, já que todos os dias ela continuava sendo ignorada pelos corredores da escola. Já Lucas, percebe que não pode ter sempre o controle de tudo, e não conseguirá proteger seus amigos para sempre.

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É difícil para Farkle também, já que Smackle muda para a mesma escola e Farkle percebe que sua namorada é mais inteligente do que ele, tomando seu posto de nerd da classe. Mas Farkle amadureceu tanto que o amor parece tomar mais importância em sua vida do que o orgulho em ter que ser sempre o melhor.

No final da terceira temporada, Maya ganha seu novo papai (Shawn), descobre que Josh realmente a ama, mas que vai esperá-la ficar mais velha, e que Zay está disposto a fazê-la se sentir menos sozinha enquanto isso não acontece.

Em alguns momentos, vemos um pouco do amadurecimento de Riley, quando ela passa a questionar seu papel de “boazinha”, e de cumpridora das regras de casa estipuladas pela sua mãe.

Lucas foi o único personagem da turma que não teve seu crescimento explorado, o que é curioso. Até mesmo Smackle teve o seu próprio crescimento, quando deixou de ser a nerd insensível que não sabe se comportar em grupos de pessoas, para uma garota amorosa e cheia de amor.

Para metaforizar, mais uma vez, estas mudanças, temos a impressão de que Topanga (mãe de Riley) vai mesmo aceitar a proposta para trabalhar em Londres. No entanto, assim como fez no passado (desistindo de ir para a faculdade que Cory não entrou, só para não deixá-lo), prefere desistir da proposta para que sua família permaneça onde sempre foram felizes.

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Dessa maneira, percebemos vários e vários ciclos se repetindo. E este não foi o primeiro nem o último. Ao longo da série, vemos flashbacks do passado de Topanga e Cory, vividos numa série anterior a essa chamada Boy Meets World (1993), e percebemos que a história deles e de seus amigos se repete através de Riley, Maya, Lucas e Farkle.  E que, ao mesmo tempo que os filhos dos protagonistas de Boy Meets World resolvem seus arcos de problemas, os pais também resolvem os deles. Como exemplo disso, temos o casamento de Shawn, que, no passado, nunca imaginou que haveria alguém para ele.

Shawn sempre foi como Maya, aventureiro e casado com a vida, não com uma pessoa. Mas ao mesmo tempo em que Shawn casa com a mãe de Maya, a sua nova paternidade ajuda no amadurecimento psicológico da própria Maya. Outro exemplo é Stuart (pai de Farkle), que era um nerd antissocial e continuou sendo toda a vida. Mas seu filho teve um destino diferente, pois teve uma escolha diferente. Farkle optou se adaptar ao invés de afrontar.

De um modo geral, Girl Meets World é uma série que aborda a adolescência do início ao fim, da maneira como ela acontece: devagar, sutil e explosiva. Pode parecer estranho e paradoxal, mas é assim que ela é.  Mudança atrás de mudança, mas sem perder-se o núcleo que faz cada um ser o que é. Apenas uma sacudida nas células, como diria Smackle.

Para os curiosos, segue o link de um site onde podemos assistir a Boy Meets World online. Infelizmente, o único site que encontramos está em inglês, sem legenda. Acesse clicando na imagem a seguir:

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Clari Maga
Publicitária, escritora e cinéfila de carteirinha