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Crítica | O filme da minha vida

O Filme da Minha Vida é uma obra de arte em movimento

No primeiro minuto de filme, uma frase é dita, em meio àquela maria-fumaça. E ao ouvi-la, nós já podemos imaginar que O Filme da Minha Vida  ganha pelo conteúdo de seu desenvolvimento. O começo é genérico, o final mais ainda. Mas o meio? Ah, o meio é simplesmente rico em sentimento e emoção.

Quando Selton Mello lançou O Palhaço (2011), houve certo rebuliço do público, e também de alguns membros da Academia. Era aquele tipo de filme que você tem duas opções: ou ama ou odeia. O Palhaço chegou a correr para a indicação de Melhor Filme Estrangeiro do Academy Awards, mas, infelizmente, não foi selecionado. Alguns dos argumentos daqueles que escolheram odiar foram: “o filme tem uma péssima montagem”; “É sem pé-nem-cabeça”; “Não tem uma trama forte”. No entanto, acredito que os espectador brasileiro ainda não estava preparado para Selton Mello.

Agora, no entanto, depois de se fazer visto por aqueles que amaram O Palhaço, Mello conseguiu um bom patrocínio para que O Filme da Minha Vida fosse uma megaprodução, sem, contudo, tornar-se um filme comercial. Muito pelo contrário! Ele lembra muito o cinema francês, com suas cores em tom pastel, seus silêncios emblemáticos, e sua maneira de contar uma história sem precisar realmente contá-la. O espectador consegue enxergá-la, interpretá-la, decodificá-la, através de diálogos simples e objetivos, dos cenários e do comportamento dos personagens. Ninguém precisa explicar nada, ou falar diretamente sobre nada. Está tudo nas entrelinhas. Quanto mais sensível o espectador for, mais fácil será ele entender.

A direção de fotografia foi um parte fundamental para o funcionamento do filme. Os planos tinham a duração ideal, o corte sutil, e a própria escolha desses planos foi extremamente importante na hora de passar as emoções e sentimentos dos personagens. A proximidade dos rostos era quase incômoda, claustrofóbica. Em outros momentos, parecia que éramos os personagens, que estávamos flutuando com eles, ou dançando com eles. Ou ainda, que, apesar de angustiante, houvéssemos mergulhado em suas mentes, como uma alucinação.

O enredo de O Filme da Minha Vida não é lá grande coisa. Garoto do interior vai estudar na capital. Garoto volta pra casa e se insere num triângulo (ou melhor, quadrilátero!) amoroso. Crises existenciais, abandono parental. Nós já vimos isso antes. Mas é como nosso protagonista falou “Depois de um tempo, eu percebi que o meio da história também é importante”. E foi isso que Selton Mello nos mostrou: O Filme da Minha Vida é simplesmente uma obra de arte em movimento. Se a gente parasse e olhasse alguma cena avulsa, ou se víssemos apenas o começo, ou o fim, perderia-se completamente a graça.

Clari Maga
Publicitária, escritora e cinéfila de carteirinha